CLUBE DE LEITURA DO COMUM – TRILOGIA DA CIDADE DE K., ÁGOTA KRISTÓF

 


Ágota Kristóf nasceu em 1935 em Csikvánd, na Hungria. Aos 21 anos, na sequência da repressão Soviética à revolução húngara, deixa a Hungria, juntamente com o marido e a filha de 4 meses. Instalam-se em Neuchâtel, na Suíça. Ágota trabalha numa fábrica de relógios e aprende a falar francês. É nesta língua de exílio, tão distinta da sua língua-mãe, e em que foi efetivamente analfabeta durante anos, que desenvolveu a sua obra literária, num estilo peculiar.

A ‘Trilogia da Cidade de K.’, originalmente publicada entre 1986 e 1991, é a sua obra mais reconhecida. Exercício de uma inteligência imensa, escrito num estilo direto e implacável, numa linguagem destilada, compasso de um horror de conto de fadas, é, afinal, um ensaio sobre identidade, memória, e a natureza da literatura, essa grande mentira, essa grande verdade, com que nos entretemos, e em que a autora se entretém, expiando a sua solidão.

O filósofo esloveno Slavoj Žižek, num ensaio sobre o livro, descreve os rapazes (os gémeos) como sendo "completamente imorais – mentem, chantageiam, matam – mas representam a ingenuidade ética autêntica no seu estado mais puro" – uma espécie de psicopatas benignos, endurecidos pela sua necessidade de autodeterminação: a sobrevivência num cenário apocalíptico. A sexualidade nas suas expressões mais brutais e perversas apresentam-se neste livro, paradoxalmente, como os únicos atos de verdadeiro amor. Ágota joga constantemente com o leitor e as suas convicções: o que é verdade e a mentira, o bem e o mal, o amor e a crueldade, a memória e a ficção. Em entrevista, Ágota revelou a natureza autobiográfica de grande parte da obra – mesmo os personagens que nos parecem mais inverosímeis, puros símbolos, foram pessoas que, afinal, conheceu – o que não pode deixar de nos parecer mais uma dobra, mais um eco ou refração, uma iteração da mesma recreação. A suspensão voluntária da descrença é desarmada, o próprio leitor é desarmado – a história é uma história, é uma história, é a verdade.

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